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Conto - Cinthia Kriemler - Via dolorosa

por Jorge Soares, em 11.01.14

Via dolorosa

"...as prostitutas e os cobradores de impostos
vos precedem no reino dos céus".  

 

Começou a morrer no momento em que foi espirrada da barriga da mãe. Jogada em meio ao amontoado de imundícies do leito do rio, onde catadores bêbados, cachorros magros e ratos enfurecidos disputavam restos de comida, apodreceu em meio às cascas por algumas horas. Mas quis a sorte ou o azar que espremesse um choro azedo exatamente na hora em que Madalena, uma das putas da rodovia, fazia o seu ofício. Curiosa, a mulher escavou a montanha de entulhos e tropeçou os olhos no bebê, que se mexia muito pouco.
Kelly Cristina vingou nas mãos daquela mãe improvisada. E tomou mais corpo do que podiam suportar os olhos embriagados dos catadores e dos drogados que perambulavam pelas margens do rio. Aos 14 anos, já fazia a vida. Aos 16, tinha um dos melhores pontos no calçadão que margeava a rodovia paralela ao rio.  Era a preferida de motoristas e caminhoneiros, que a recolhiam embaixo do viaduto. Aos 17, mais tarde que a maioria, criou barriga. Como queria ver a cara da criança, escondeu a prenhez de Madalena, até que nenhuma das mulheres teve coragem de lhe fazer um aborto.
Viu a filha nascer bem cedo, em uma manhã de sexta-feira. E passou com ela pouco mais que um dia, antes de se levantar e ir trabalhar novamente. Na noite de sábado, apesar do cansaço, saiu para o ofício banhada e perfumada. Não sabia que, ao voltar, a criança teria ido embora. Madalena já tinha destino combinado para a menina e lhe deu sumiço sem avisar a ninguém. Kelly Cristina, histérica, esbofeteou-a para que dissesse onde estava a filha, mas tudo o que recebeu foi um abraço silencioso. Nunca mais soube da criança.  

 

OOO
É tarde da noite. Da vida, também. Kelly conhece o veneno que sacia o seu sangue. Vai morrer do prazer que sente pelo sexo de todo o dia. Não lhe interessa a saúde comprovada pelos exames pagos pela ação social da igreja, uma vez por ano. Seu corpo morre é de vontade, não de descuido; o corpo de curvas sensuais que é disputado sob o viaduto. Há nove anos, provou seu primeiro homem. Tinha gosto de pressa. Nunca mais experimentou coisa melhor que os homens da estrada. Faz com pressa o ofício até hoje. E goza.
O corpo do traficante com quem se amasiou depois de parir a filha acaba de sair porta afora. Ela olha o cadáver, se lembrando das surras quase diárias. Mas também das pedras de crack que ele lhe trazia. O puto só lhe entregava o bagulho em troca de um boquete demorado. Pau mole de merda, pensava, enquanto tentava acelerar o gozo do companheiro. O único contratempo na morte do infeliz é que ela vai ter que arranjar as pedras em outro lugar. Nem o filete de sangue que escorre da sua barriga a incomoda.

 

Cinthia Kriemler

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:27


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