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Conto - Até quando?

por Jorge Soares, em 28.12.13

Até quando?

 

Rui amava Andreia. Declaração feita na noite em que se conheceram e que a deixou encantada. Poderia haver quem não se deixasse amar da noite para o dia. Quem não se empolgasse com uma frase batida e um beijo de discoteca. Quem não se seduzisse pela oferta de uma imperial e de um apalpão indiscreto. Mas não Andreia. Tudo isto lhe pareceu de um grande requinte amoroso. E uma enorme prova de afeto.

 

Rui amava Andreia. Mesmo nos momentos em que ela falhava. Só não gostava da falha. Numa primeira vez disse-lho. Numa segunda teve que levantar a mão. E à terceira deixou-a estendida no chão. Mas amor também é isto: ajudar o outro a ultrapassar as suas limitações; a olhar-se ao espelho. E ele ajudava-a. Tinha essa consideração amorosa. Esse decoro em lhe dar a mão, quando ela nem o merecia.

 

Rui amava Andreia. Em cada reconquista que engendrava. Em cada momento que lhe limpava as lágrimas. Que lhe escondia as feridas. Que nela se vinha. Corpo nu e cru: depósito de vontades; de ímpetos de homem que o sabe ser; que ama o imperfeito. E Andreia agradecia-lhe a dedicação de com ela continuar. De nela procriar.

 

Andreia sentia-se amada por Rui. Mesmo no dia em que vozes se sobrepunham, pessoas a olhavam de cima e lhe mexiam no corpo - frio e repuxado de tanto afeto-. Alguém lhe tentou colocar qualquer coisa na cara mas ela desviou, com a pouca força que ainda lhe restava. Já chegava de máscaras. Quem disse que o oxigénio é a base da vida? Olhou então para o seu filho, sentado numa cadeira a um canto, chorando, reconfortado por uma qualquer mão que de gentil lhe ganhou o coração, e pensou em quão veloz pode uma vida ser. E quão despida de vida. Uma vida despida de vida. Hipóteses perdidas que se esfumaram de cada vez que se achou amada. Fugas idealizadas que terminaram no ponto de partida: invariavelmente.

 

E já a sombra lhe vai chegando quando o olhar do seu filho se perde. Fica para trás. Ela vai. Esvai-se. Às 23h59m do dia 7 de Setembro de 2013. Daí a uns segundos completaria 36 anos. Até no adeus Rui soube ser refinado.

 

Maria

 

Retirado de Monólogos de uma vagina

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publicado às 19:30

Conto - No elevador

por Jorge Soares, em 31.08.13

No elevador

Imagem de aqui

 

Voltar para casa o deprimia. A expectativa de, após um dia de trabalho ouvindo os berros animalescos de seu Djalma tratando-o como um reles vassalo; abrir a porta de casa e topar com a megera, estendida no sofá, devorando bombons e metida em um enorme robe cor-de-rosa era um desajuste para qualquer mortal. Fosse só isto, ele até que poderia tolerar, mas as cobranças, humilhações e o desprezo iam minando, dia após dia, o que ele e a esposa ainda fingiam ser um casamento.

 

         — Bancário! – exclamava a esposa carregando no desprezo, boca marrom de chocolate – Não passas de um medíocre e vil bancário! E pensar que eu podia estar casada com o Deputado! Que triste sina a minha!

No decorrer dos anos, passou  a ter nojo de chocolate. Bastava o cheiro para nauseá-lo.  

 

Sua angústia diária tinha início dentro do elevador do prédio onde morava. Acompanhava o lento passar da cabine pelo andares até chegar àquele palco seu tormento. “Lar, doce lar”, resmungava  em tom irônico.

 

Naquele final de tarde tudo parecia caminhar para a mesma rotina de achincalhes promovidos pela megera. Apertou o botão de chamada do elevador e esperou que ele chegasse até o térreo. Quando fechou a porta ouviu uma súplica.

 

              —   Sobe?

 

Era uma voz adocicada, mansa, suave, em tudo contrastante com o tom estridente e marcial de sua esposa. Curioso e gentil, segurou a porta do elevador. Ela sorriu para ele em sinal de agradecimento. Tratava-se não de uma mulher exuberante, mas alguém que estava elegantemente vestida e denotava alguma sofisticação. Seus gestos eram refinados e um leve perfume agradável exalava de sua pele. Saltou no décimo andar, sacudindo a cabeça em sinal de boa noite.

 

Desde aquela data, a curta viagem de elevador tornou-se o melhor momento do seu dia. A presença daquela mulher e os quase monossilábicos cumprimentos pareciam amenizar todo o peso do cotidiano desprezível de sua existência. Ansiava por aqueles minutos, chegava a fazer uma horinha no hall social do prédio esperando que ela chegasse, forçando a coincidência do encontro. Entristecia-se caso ela não aparecesse e renovava a suas esperanças  para o dia seguinte.

 

Numa tarde, enquanto esperava o elevador já desapontado pela ausência da sua admirada, ela surgiu no hall social. Chorava. As lágrimas inundavam seu rosto, umedecendo os olhos redondos. Não havia ainda prestado atenção na beleza dos seus olhos castanhos. Na verdade, o tempo da viagem era demasiadamente curto para se prender a detalhes.

               —     Posso ajudá-la, moça?

 

Sacudiu negativamente a cabeça.

 

Ele ofereceu um lenço, prontamente aceito. O elevador chegou.

 

               —    Sou feia?

               —    Não.. imagina...

               —     Pareço uma pessoa  sem atrativos?  Me visto como uma freira?

               —     Claro que não!

             —     Ele acha que sim – disse soluçando – que fazer amor comigo é como beber água. Algo sem gosto, sem graça.

                —    Ele deve ter dito isto da boca pra fora – disse ele enquanto entravam no elevador.

 

Assim que a porta fechou, ela inesperadamente o agarrou, beijando-o com volúpia. Entre o correr dos andares, amaram-se de pé, vestidos. Parcos minutos de prazer até o elevador alcançar o décimo andar.

 

Os encontros passaram a ser diários. Quando havia uma ou mais pessoas esperando o elevador, eles aguardavam a oportunidade de subirem sozinhos. Caso um ou outro estivesse com o seu companheiro, fingiam indiferença e desconhecimento, um tanto desapontados pela oportunidade perdida. Amavam-se dentro da cabina, respiração ofegante, um misto de prazer e medo de que os respectivos cônjuges pudessem estar do outro lado da porta, no andar seguinte. Arrumavam-se rapidamente ante a aproximação do andar onde ela morava. Era automático, sem preliminares, sem nomes, curiosidades sobre a vida de cada um. Nada os atrapalhava naqueles breves momentos de paixão. Somente o ato de amor os consumia. 

 

Um dia, um blecaute tomou conta do Rio de Janeiro. A cidade foi invadida por um breu no começo da noite. Tudo parou, inclusive o elevador onde os amantes estavam. Os bombeiros, ao abrirem a cabina, parada entre dois andares, os encontraram risonhos, nus e gargalhantes, suas roupas espalhadas por todo o elevador. Ela agora sabia que ele se chamava Mauro. Ela, Andréa. Tiveram tempo.

 

Zulmar Lopes


Retirado de Revista Samizdat

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publicado às 21:07

 

Refugiados em Lampeduza

Imagem do Público

 

 

Vivemos num mundo de contrastes, há bem poucos dias vimos como os Estados Unidos, um dos membros da NATO, utilizou de uma forma magistral os seus soldados e a sua tecnología para no outro lado do mundo, invadindo outro país, aplicar a sua peculiar forma de justiça.

 

Hoje um Jornal inglês relatava como apesar de  toda essa tecnología, de todos esses meios, dos muitos milhares de homens, dos muitos milhões de Euros que diariamente se gastam numa guerra civil patrocinada e apoiada pelos países ocidentais, ali ao lado, a poucos kms de terra e à vista de Porta-aviões, Helicópteros, navios e aviões, mais de 60 pessoas, incluindo duas crianças pequenas, morreram de fome e de sede num barco no mediterrâneo.

 

O mediterrâneo é um mar interior, todos os dias há centenas de navios que o cruzam em todas as direcções, como é possível que um barco com mais de 70 pessoas ande à deriva durante 16 dias sem que ninguém o veja? Como é possível que no século XXI se deixem morrer pessoas à fome e à sede só porque nasceram no lado errado do mar e não desistem de chegar ao lado certo?

 

É claro que nesta altura a culpa não é de ninguém, ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém soube.... na verdade, ninguém quis saber, são refugiados, que importa mais 50 ou menos 50?

 

Há quem diga que o mundo está mais seguro sem Bin Laden e sem muitos dos ditadores que foram caindo nos últimos meses... depois de ler notíciass como esta eu tenho sérias dúvidas. De que serve um mundo mais seguro se estamos a construir uma sociedade que não é capaz de ser humana?

 

Jorge Soares

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publicado às 22:08

Cancro de mama

 

Anualmente, morrem em Portugal 1500 mulheres vítimas de Cancro da Mama. Avós, mães, irmãs, mulheres…

 

O Cancro da Mama também o afecta a si

 

 

Como sabe, Outubro é o Mês de Prevenção do Cancro da Mama. Nesse sentido, a Liga Portuguesa Contra o Cancro, ao abrigo do protocolo “Tempo de Viver” levou a cabo uma parceria com a Roche Farmacêutica no sentido de sensibilizar a população portuguesa para a necessidade de prevenir o cancro da Mama, estabelecendo assim a Campanha “Amar a Vida”.

 

Numa primeira fase, a Liga Portuguesa Contra o Cancro conseguiu, no espaço de apenas uma semana, angariar 80 mil fãs na sua página oficial do Facebook, o que representou uma doação preciosa de 80.000€ por parte da Roche Farmacêutica.Próximo Desafio? Tornar a página da Liga Portuguesa Contra o Cancro a página com maior número de fãs em Portugal pois consideramos, e acreditamos que partilha da mesma opinião, que a informação é uma poderosa arma contra o cancro.

 

Para isso gostaríamos de contar com o seu apoio na divulgação desta campanha junto dos seus seguidores!

 

O seu pequeno gesto fará uma grande diferença!Agradecemos a sua atenção,

Liga Portuguesa Contra o Cancro

 

http://www.ligacontracancro.pt

 

Página do Facebook da Liga Portuguesa contra o cancro

 

O Post de hoje é para responder a um apelo que me chegou por mail, faço-o com todo o gosto, porque há coisas que nunca são de mais.

 

Jorge Soares

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publicado às 21:15

Falas de civilização

por Jorge Soares, em 23.06.09

Falas de civilização

 

 

Falas de civilização...

 

Falas de civilização, e de não dever ser,

Ou de não dever ser assim.

Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,

Com as coisas humanas postas desta maneira,

Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.

Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.

Escuto sem te ouvir.

Para que te quereria eu ouvir?

Ouvindo-te nada ficaria sabendo.

Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.

Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.

Ai de ti e de todos que levam a vida

A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

 

                                          Alberto Caeiro

 

Acho que vou precisar de um tempo para digerir e pensar..... entretanto, fala Pessoa... de civilização

 

Jorge

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publicado às 22:05


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