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Conto: Sade, o Lata de Água II

por Jorge Soares, em 16.10.10

Conto: Sade, o Lata de Água

Imagem da internet

 

Continuação do Conto.. podem ler o inicio aqui

 

- Júlia, quero saber: quem o dono da grávida?
- Armando, você jurou que nunca havia de perguntar
- Agora já quero esse nome. Não podes dar parto sem eu saber a verdade do pai dessa criança.
Júlia permaneceu calada e arrumou-se outram vez na cama. Ele sacudiu-a com violência.
- Vais-me dar porrada? - assustou-se ela.
- Quando não disseres, vou-te dar.
- Não serei eu sozinha a batida. E capaz que vais aleijar o teu filho.
Ele olhou para si mesmo: estava de joelhos, parecia estar de rezas. Um homem que exige não fica na posição dos que pedem. Levantou-se e foi acender o xipefo. Na sombra falou-lhe, já calmo:
- Dorme, Júlia, eu não quero ouvir esse nome. Mesmo quando te pedir outra vez: nunca fales essa pessoa.
Ela sorriu, destapou o lençol e mostrou aquele redondo da lua na barriga.
- É seu filho, Sade. É seu.
A criança nasceu. Ele confirmou, então, a suspeita de um sentimento: o miúdo era um estranho, um remendo na sua honra. Mas um remendo vivo, chorosa testemunha das suas fraquezas. As vezes gostava-o e ele era seu. Outras, o bebé era um intruso que o vencia.
Na vizinhança ninguém desconfiava da identidade do pai. Mas Sade estava cada vez mais inseguro: olhava a criança e parecia que ela sabia de tudo. Quis um filho para esconder vergonha. Agora, tinha um filho que ameaçava o segredo da sua vida. Cada vez mais era difícil aquela morada. Ciumava dos cuidados que a mulher dedicava ao pequeno rival. O futuro atrapalhava-o como um caminho escuro. Mais e mais vezes batia na mulher, cada vez mais passeava nas bebidas. Nunca bateu no miúdo. As porradas que lhe queria dar destinava-as na mulher.


Sentiu a fora do vento na porta e acordou da lembrança. Sempre que se recordava trabalhavam facas dentro da alma. Estava proibido de ir ao passado. E tudo por causa de Júlia, raio de mulher. Fechou a porta com a decisão da fria.
- Sua puta!
E desatou aos pontapés. Queria feri-la, transferir para ela as dores que sentia. Caíram latas, num barulho enorme. Ele não esmoreceu: debruado sobre a cama insultava-a, cuspia-lhe, ameaçava-a da morte derradeira. Os vizinhos. ele já sabia, não viriam acudir. E, aquele noite, a raiva era de mais. Havia de lhe bater até sangrar. Puxou do cinto e usou-o com tanta vontade que o balanço o fez cair sobre a mesa. Pratos e copos caram, rasgando outra vez o silêncio da noite.
De repente, sentiu um barulho na porta. Quando olhou esse algum já tinha entrado. Era Severino, o chefe do quarteirão.
- Que queres, Severino?
- Calma, Sade. Para quê tudo isso?
Ele respirava como se alimentasse muitas almas.
- Senta-te, Sade.
Ele obedeceu. Nos suspiros cicatrizava o fogo da alma.
- Porque que você sempre faz isto? Já viu bater assim numa mulher?
Ele não respondeu. Tentava baixar aquela quentura dentro do peito. Ficou assim uns minutos, até que respondeu:
- Eu não estou a bater em ninguém.
Severino não percebeu. Deve ser está grosso, vai começar uma conversa de muitas coisas. Sade insistiu.
- Não há ninguém nesta casa. Só sou eu sozinho.
Severino olhou em volta, desconfiado. Não havia, realmente, ninguém.
- Pode ver em todo o lado. A Júlia não está, há muito tempo que foi-se embora. Eu não estou a bater contra ninguém.
- Desculpa, Sade. Pensei...
E como não encontrasse palavras decidiu-se a sair. Andava de costas como se a surpresa fosse uma cobra ameaçando saltar-lhe.
- Severino?
- Sim, estou a ouvir.
- Eu faço isto não sei porquê. E para vocês pensarem que ela ainda está. Ninguém pode saber que fui abandonado. Sempre que bato não é ninguém que está por baixo desse barulho. Vocês todos pensam que ela não sai porque sofre da vergonha dos vizinhos. Enquanto não...
Severino tinha pressa de sair. Sade estava com os braços desmaiados, caídos ao lado do corpo. Parecia que a carne se mudara em madeira e que a desgraça havia esculpido nela. Severino saiu, fechando a porta com o cuidado que se guarda para o sono das crianças.
Lá fora uma multidão aguardava das notícias. O chefe do quarteirão, com um gesto vago, espalhou a sua voz:
- Já podem ir. A mamã Júlia está bem. Ela está pedir que voltem para vossas casas, dormirem descansados.
Alguém protestou:
- Mas Severino. .. Afinal, como é?
O chefe do quarteirao, com sorriso atrapalhado:
- Eh, pá, você já sabe como são essas nossas mulheres.

 

Mia Couto in Vozes anoitecidas

 

Retirado de: Contos de Aula

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publicado às 20:55

Conto: Sade, o Lata de Água

por Jorge Soares, em 09.10.10

Sade O Lata de Água

 

Imagem da Internet

 

Tarde de madeira e zinco. Com telhados pendurados, a cacimba a raspar-lhes. Molhadas, as pálpebras da tarde parecem soltar morcegos.
No bairro de caniço a paisagem beijada só pela morte. Sade regressa a casa, tropeçando pragas. É rasteirado pela cerveja, toda a tarde entornada no seu desespero.
- Amigos? Caraças, são os primeiros a lixarem um gajo!
Estoiram risos nos umbrais das portas.
- Riam, cabrões.
Remexe os bolsos. Cigarros: nada. Fósforos: nada. As mãos impacientes interrogam o vestuário. Apetecia-lhe o fumo, precisava da força de um cigarro, da segurança dos gestos já feitos.
- Olha o Lata de Água. A mulher nem sai da casa, desde que ele meteu-se na bebida.
Não era verdade. As mulheres sempre recebem o prémio de se ter pena delas. Sacanas dos vizinhos. Só estão perto quando querem espreltar desgraças. No resto ninguém lhes conhece.
Entrou em casa e fechou a porta. A mão ficou no trinco, distraída, enquanto ele passeava os olhos naquele vazio. Lembrou-se dos tempos em que a encontrou: foram bonitos os dias de Júlia Timane!
Tinha havido muito tempo. Estava sentado numa paragem à espera de nada, dessa maneira que só os bêbados esperam. Ela chegou e sentou-se ao lado. A capulana que trazia sobre os ombros parecia pouca para um frio tão comprido. Começaram de falar.
- Sou Júlia, natural de Macia.
- Não tens marido?
- Já tive. Por enquanto não tenho.
- Foram quantos os maridos?
- Muitos. Tenho os filhos, também.
- Onde estão esses filhos?
- Não estão comigo. Os pais levaram.
Ele ofereceu o casaco para a cobrir do frio. Ela ajudou-o a encontrar o caminho para casa. Mas acabou por ficar aquela noite. E as outras noites também.
Quando souberam que andava com ela, condenaram-no. Ela estava muito usada. Devia escolher uma intacta, para ser estreada com seu corpo. Ele não quis ouvir. Foi então que passaram a chamá-lo de Lata de Água. Em toda a parte, alcunha substituiu o nome. A água aceita a forma de qualquer coisa, não tem a própria personalidade.
Com o tempo foi-se apercebendo de uma coisa grave: ela não lhe dava filhos. Isto ninguém podia saber. Um homem pode ter barba, não-barba. Agora filhos tem que tirar: um documento exigido pelos respeitos.
Um dia disse-lhe:
- Temos que ter um filho.
- Não podemos, você sabe.
- Temos que arranjar maneira.
- Maneira, como? Se eu não tenho a culpa? O hospital explicou o problema: você que não tira os filhos.
- Não estou a falar de culpa. Já estudei o problema, a solução já descobri: abastece-se lá fora, mulher.
- Não estou perceber.
- Estou-te dizer: dorme com outro. Eu não vou zangar. Só quero um filho mais nada.
A noite ela saiu. Voltou muito tarde. As noites seguintes ela fez o mesmo. Foram muitas noites.
Ele perguntou:
- Uma vez não chega?
- Não quer um filho? É bom garantir.
- Faça lá maneira que vocês sabem. Mas rápido, não quero falta de respeito.
Júlia engravidou-se. Ele festejou a notícia. Aquelas primeiras semanas foram muito felizes. Até que uma vez ele acordou-a no meio da noite:
- Júlia, quero saber: quem o dono da grávida?

 

.... Continua

 

Mia Couto in Vozes anoitecidas

 

Retirado de: Contos de Aula

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publicado às 21:05

Conto: As Moiras

por Jorge Soares, em 15.05.10

Luna de Abril

 

Imagem minha do Momentos e olhares

 

Este caso contava-se na minha terra, terra de mar. Havia quem nele acreditasse. A minha terra é banhada por um rio, a que ninguém dá nome, e pelo mar. Creio que já se lhe não conhece a origem: é muito antiga. Tanto que as ruas velhas, quase todas elas o são, cobertas de areia, aos altos e aos baixos, quando sofrem conserto mostram buracas que antes abriam para subterrâneos, caminhos escondidos, do tempo dos moiros, a que chamam fojos...

Mas não é dos moiros que ainda hoje lá se fala. É das moiras. Há tanta memória delas! Ditos e receios... Até os pescadores quando traziam do mar os covos vazios se queixavam delas: não fossem as moiras! Marfadas! Condenadas!

Quem vinha a desoras para o povo também espalhava medos:

À meia-noite é que elas aparecem. Põem-se a pentear e a cantar, têm uns cabelos muito compridos! sentadas nas rochas... Vê-las é a nossa perdição.

Mas vossemecê viu? - perguntavam.

Ninguém tinha visto, porém todos sabiam que era verdade. E que em certas ocasiões as badaladas da meia-noite soavam por toda a banda, por cima das alfarrobeiras e das amendoeiras, no chão e no ar. Alguma estava para acontecer! E por culpa das moiras. À meia-noite era certo...ah! lá isso era! virem elas de corrida pelo rio abaixo até o mar. E até havia quem dissesse que ao dar do meio-dia era o mesmo. E acre ditavam, mas ninguém vira. Sabia-se apenas que elas eram muito belas e que cantavam. Quem lhes quebrasse o encanto ficava a poder mais que um rei. Que elas ainda possuíam riquezas fabulosas! Ou então... ficaria um seu escravo.

Isto era o que se dizia. Até que de uma vez aparece um rapaz desconhecido a correr pela praia fora, com os cabelos muito bastos e soltos, o olhar vago e a sorrir. Quem seria quem não seria... Foi-se juntando povo à roda dele e as perguntas a chover. Mas ele só dava às mãos, abanava a cabeça e sorria. Por fim deixaram-no fugir e ficaram murmurando: é um desgraçado.

No outro dia e nos mais que se seguiram aconteceu o mesmo. O rapaz aparecia do lado do rio, a correr, com aqueles cabelos tão compridos e lisos como uma seda, de mãos no ar, com um ar de riso... Nada pedia, nada aceitava...

É um aventureiro! É mas é um infeliz! As opiniões dividiam-se. O povo andava alvoroçado.

É um louco, é um zorro, é um perdido!

As mãos tremem-lhe, aventavam algumas mulheres, vê-se que quer falar e não pode. E foi, afinal, um carvoeiro da serra que veio a deslindar o caso. Aquele rapaz era rico. Tinha noiva, uma grande casa, cavalos e prédios como poucos. Mas tudo abandonara por causa delas. Numa certa noite, fazia uma lua como um sol, ao darem as doze badaladas... ele viu-as e foi atrás delas... Perdeu-se. Mas não lhes pôde quebrar o encanto. Elas é que lhe tiraram a fala. Deixou tudo e agora era certo, na verga do dia e ao dar a meia-noite, passar a correr do rio para o mar. Podia o sol tornar a areia em brasa, podia a lua gelar, podia a maré varrer tudo, que ele nunca parava, e sempre com aquele ar de riso.

Alguns homens lembraram-se de levar ao encontro dele as moças mais bonitas da terra, mas ele dava às mãos, sem as ver sequer, e continuava na sua carreira. Houve quem lhe oferecesse figos secos e papas, que era o comer da terra. Mas ele tudo recusava...

Pudera, se as moiras o sustentavam...

Até que um dia, já toda a gente se habituara a ele, um dia muito triste, muito escuro, com os pássaros do mar em terra e um levante de fazer arrepiar os mortos, se viu o mais triste espectáculo... quem terá forças para o contar?

Começaram a estalar as faíscas, que até pareciam um fogo de vistas, e os trovões a ribombar. O mar subia. As mulheres vinham às portas clamar que era o fim do mundo. Um frio, como nunca se sentira assim, picava-as na boca, mas elas não se calavam. As crianças choravam.

Nisto passa o louco, de estoiro.

Ele aí vai! Ele aí vai! - gritavam elas. É um perdido! Vai ter com as moiras.

O triste, mais pálido que uma rosa branca, com os cabelos a voar, corria como o vento ou como os raios trémulos. Chega à orla do mar e estaca. Abre os braços. Abre-os tanto que parece abranger a massa toda da água, e mete-se nela, desaparece.

O povo, que o estava vendo de longe, dá um grande soluço. E não faltou depois quem afirmasse que do mar outros soluços lhe responderam. O pobre perdera a sua alma! E tudo por causa das moiras.

Sabido é que o temporal abrandou.

Era um infeliz. Cumpria o seu fadário. Marfadas, condenadas...

Estas vozes e outras corriam depois acerca do louco e das moiras. E aos serões, enquanto os rolos da empreita tremiam e reviravam suspensos dos dedos activos das mulheres, sentadas nas capachinhas, repassavam-se as graças do suicida: era tão delgado como um junco, como um junco novo... e o olhar dele? mas nunca via ninguém! pudera, se ele as tinha visto a elas... formosura igual? nunca houve! e os cabelos, e as mãos dele, tão finas? sempre a virar, sempre a virar... tinha o rosto moreno... pois tinha, mas já fora mais claro que a água, o sol e o vento é que o haviam crestado, e o que ele corria, léguas, sempre no mesmo passo? aquilo nem era correr, era voar, como os pássaros, nunca se soube de onde vinha, que era louco, que era louco? andava mas era a cumprir um fado! agora acabaram-se os perigos do mar, agora está ele enterrado com elas, lá bem no fundo...

Mas quando os homens tornavam a vir da pesca, de ombros derreados e a praguejar, nunca deixavam de intercalar nas suas queixas: marfadas, condenadas, não fossem elas!

 

Irene Lisboa, Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma

 

Retirado de Contos de Aula

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publicado às 19:55

Conto: A fogueira

por Jorge Soares, em 08.05.10
Vozes Anoitecidas - A Fogueira - Óleo S/ Tela - 80x80

A velha estava sentada na esteira, parada na espera do homem sadio no mato. As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados.
A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho.
O velho foi chegando, vagaroso como era seu costume. Pastoreava suas tristezas desde que os filhos mais novos foram na estrada sem regresso.
“Meu marido está diminuir”, pensou ela. “É uma sombra”.
Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse:
- Estou a pensar.
- E o quê, marido?
- Se tu morres como que eu, sozinho, doente e sem as foras, como que eu vou-lhe enterrar?
Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou:
- Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. E melhor começar já a abrir a tua cova, mulher.
A mulher, comovida, sorriu:
- Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida.
O velho ficou calado, pensativo. Só mais tarde a sua boca teve ocasião:
- Vou ver se encontro uma pá.
- Onde podes levar uma pá?
- Vou ver na cantina.
- Vais daqui até na cantina? É uma distância.
- Hei-de vir da parte da noite.
Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. Farrapos de poeira demoravam o último sol, quando ele voltou.
- Então, marido?
- Foi muito caríssima - e levantou a pá para melhor a acusar.
- Amanhã de manhã começo o serviço de covar.
E deitaram-se, afastados. Ela, com suavidade, interrompeu-lhe o adormecer:
- Mas, marido...
- Diz lá.
- Eu nem estou doente.
- Deve ser que estás. Você és muito velha.
- Pode ser - concordou ela. E adormeceram.
Ao outro dia, de manhã, ele olhava-a intensamente.
- Estou a medir o seu tamanho. Afinal, você é maior que eu pensava.
- Nada, sou pequena.
Ela foi lenha e arrancou alguns toros.
- A lenha está para acabar, marido. Vou no mato levar mais.
- Vai, mulher. Eu vou ficar covar seu cemitério.
Ela já se afastava quando um gesto a prendeu à capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse:
- Olha, velho. Estou pedir uma coisa...
- Queres o quê?
- Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho.
- Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra.
Durante duas semanas o velho dedicou-se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram.
- Não fala asneiras, vai ser dado o castigo - aconselhou ela. Choveram mais dias e as paredes da cova ruíram. O velho atravessou o seu chão e olhou o estrago. Ali mesmo decidiu continuar. Molhado, sob o rio da chuva, o velho descia e subia, levantando cada vez mais gemidos e menos terra.
- Sai da chuva, marido. Você não aguenta, assim.
- Não barulha, mulher - ordenou o velho. De quando em quando parava para olhar o cinzento do céu. Queria saber quem teria mais serviço, se ele se a chuva.
No dia seguinte, o velho foi acordado pelos seus próprios ossos que o puxavam para dentro do corpo dorido.
- Estou a doer-me, mulher. Já não aguento levantar.
A mulher virou-se para ele e limpou-lhe o suor do rosto.
- Você está cheio com a febre. Foi a chuva que apanhaste.
- Não mulher. Foi que dormi perto da fogueira.
- Qual fogueira?
Ele respondeu um gemido. A velha assustou-se: qual o fogo que o homem vira? Se nenhum não haviam acendido?
Levantou-se para lhe chegar a tigela com a papa de milho. Quando se virou já ele estava de pé, procurando a pá. Pegou nela e arrastou-se para fora de casa. De dois em dois passos parava para se apoiar.
- Marido, não vai assim. Come primeiro.
Ele acenou um gesto bêbado. A velha insistiu:
- Você está esquerdear, direitar. Descansa lá um bocado.
Ele estava já dentro do buraco e preparava-se para retomar a obra. A febre castigava-lhe a teimosia, as tonturas danando com os lados do mundo. De repente, gritou-se num desespero:
- Mulher, ajuda-me.
Caiu como um ramo cortado, uma nuvem rasgada. A velha acorreu para o socorrer.
- Estás muito doente.
Puxando-o pelos braos ela trouxe-o para a esteira. Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte um simples deslizar, um recolher de asas. Não um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
- Mulher - disse ele com voz desaparecida. - Não lhe posso deixar assim.
- Estás a pensar o quê?
- Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar-te.
- É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. E uma pena ficar assim.
- Sim, hei-de matar você; hoje no, falta-me o corpo.
Ela ajudou-o a erguer-se e serviu-lhe uma chávena de chá.
- Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força.
O velho adormeceu, a mulher sentou-se porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu-se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou-se e adormeceu. Sonhou dali para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba encheu-se de produtos, os olhos a escorregarem no verde. O velho estava no centro, gravatado, contando as histórias, mentira quase todas. Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar-se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. Os ruídos da manhã foram-na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele sonho. Pediu à noite que ficasse para demorar o sonho, pediu com tanta devoção como pedira vida que não lhe roubasse os filhos.
Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar fora naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que ele estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.

 

Mia Coutoem Vozes Anoitecidas

 

Retirado de Contos de Aula

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publicado às 21:00


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