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Conto - A mulher e o gorila

por Jorge Soares, em 12.03.16

Monga-a-mulher-gorila-parque-guanabara-04.jpg

 

Imagem de aqui

 
 
... e o segredo é a sincronização. A mulher e o gorila têm que estar em marcações certinhas, para que a imagem de um sobreponha a do outro no reflexo do vidro. Só não é um truque mais velho do que o circo porque a lâmpada foi inventada por Thomas Edson somente no século 19, meu camarada. Mas é claro que é necessário ter luz! Eu te explico o funcionamento: em um cubículo fica a garota, trajes sumários, bem sensual, em outro, num ângulo de 90 graus e de frente para a plateia fica o cara fantasiado de gorila. No meio, perfazendo um ângulo de 45 graus, um vidro. No mais, basta um bom iluminador. No início, o público vê a imagem da mocinha de biquíni refletida no vidro. Quando a luz vai se apagando e simultaneamente vai se acendendo a do cubículo do gorila tem-se a impressão que a menina está se transformando no primata. É... primata. Um lance de escala zoológica, não estudou isso na escola? Desculpe, não quis ofendê-lo. Mas, onde é que eu estava? Ah... depois que o público está vendo só o gorila, remove-se o vidro, ele rompe o cadeado da jaula, sai correndo atrás dos expectadores, é contido pelo domador e o número acaba. Acho que essa gente que mora no cu do mundo — quando aparece um cirquinho mequetrefe é um acontecimento para a cidade — acredita realmente na mulher-gorila. Povinho ingênuo, hein? Como é que eu sei tudo isso? Fui o gorila durante anos em um espetáculo circense, ora.
 
 
Calor aqui, né? Que espelunca. Bebida horrível, música mais brega que Reginaldo Rossi. Mais uma branquinha? Por minha conta. Obrigado por me ouvir. As pessoas perderam a paciência de escutarem umas as outras. Sim, sou novo na cidade, difícil de me enturmar. Como eu ia dizendo, fiz o gorila durante um tempo no Circo Irmãos Graziani cujos proprietários na verdade eram dois paraguaios que usavam o nome de um atacante perna-de-pau da seleção italiana de 82. Vida boa, comida mais ou menos, trailer para dormir e um salariozinho para gastar na zona de cada cidade onde parávamos. Trabalho fácil. Bastava fazer uns ruídos de gorila, socar o peito e correr atrás dos idiotas. O que estragou foi quando a Giovana deu um chilique, deixou o circo e contrataram uma nova mulher-gorila. Mulherão, altona, cabelão descendo em cascata pelas costas, pele de marfim, peitões de americana de filme pornô e uma bunda incomensurável, bunda brasileira, carnuda, redonda, algo divinal. Gamei na hora. Foi uma merda. Todo dia ela de biquíni rebolando na câmara ao lado e eu de fantasia de gorila, transbordando tesão por todos os poros. Ela era safada, me dava trela e depois fugia, escorregadia feito um peixe ensaboado. Não sei por que esse negócio de peixe ensaboado. É verdade, fico divagando, fugindo da narrativa. Bom, fiquei meses nessa lenga-lenga, me declarei, disse estar apaixonado, o diabo a quatro. O máximo que ela me deixava era tocar naquelas mamonas assassinas, mas por cima do sutiã do biquíni antes da apresentação e mesmo assim tinha que pagar vinte contos para a ordinária. Isso, uma grandíssima piranha, você tem razão.
 
 
Meu mundo ruiu quando eu descobri que ela era amante de um dos Irmãos Graziani, o Paquito, se eu não me engano. Eram gêmeos idênticos. Envenenado de ciúmes, julgando-me traído toquei fogo no circo, literalmente. Um prejuízo enorme. Não, não morreu ninguém. Apenas dois pôneis e a pombinha do mágico. Do circo, não sobrou nada para contar história. Julgado, peguei cinco anos de tranca. Saí com dois. Réu primário, bom comportamento. O processo civil ainda corre na justiça. Temo pagar milhões de indenização para aqueles italianos de araque com sotaque espanhol.
 
 
Agora, estou aqui, dentro desse cabaré infame, com a infeliz ali, razão da minha perdição, ex-mulher-gorila dos infernos, pendurada no poste, se rebolando para os clientes. Se chama pole dance? Esquisito. É inglês? Qual é o nome de guerra da vagabunda? Gigi? No circo se chamava Laurinda. Sei lá se esse é o nome verdadeiro da desgraçada. Soube que ela está de rabicho com um mágico, um tal de Mondrique, de um circo mais chinfrim que o Irmãos Graziani armado por estas bandas. Quer saber? Pego mais trinta anos mas me vingo desta mulher. Dizem que o novo macho dela tem poderes sobrenaturais? Pago pra ver!
 
Zulmar Lopes
 
 
Obs: terceiro conto publicado na antologia "Respeitável Público - Histórias de Circo e Outras  Tragédias" - Editora Penalux

 

Retirado de Samizdat

publicado às 21:13

Conto - No elevador

por Jorge Soares, em 31.08.13

No elevador

Imagem de aqui

 

Voltar para casa o deprimia. A expectativa de, após um dia de trabalho ouvindo os berros animalescos de seu Djalma tratando-o como um reles vassalo; abrir a porta de casa e topar com a megera, estendida no sofá, devorando bombons e metida em um enorme robe cor-de-rosa era um desajuste para qualquer mortal. Fosse só isto, ele até que poderia tolerar, mas as cobranças, humilhações e o desprezo iam minando, dia após dia, o que ele e a esposa ainda fingiam ser um casamento.

 

         — Bancário! – exclamava a esposa carregando no desprezo, boca marrom de chocolate – Não passas de um medíocre e vil bancário! E pensar que eu podia estar casada com o Deputado! Que triste sina a minha!

No decorrer dos anos, passou  a ter nojo de chocolate. Bastava o cheiro para nauseá-lo.  

 

Sua angústia diária tinha início dentro do elevador do prédio onde morava. Acompanhava o lento passar da cabine pelo andares até chegar àquele palco seu tormento. “Lar, doce lar”, resmungava  em tom irônico.

 

Naquele final de tarde tudo parecia caminhar para a mesma rotina de achincalhes promovidos pela megera. Apertou o botão de chamada do elevador e esperou que ele chegasse até o térreo. Quando fechou a porta ouviu uma súplica.

 

              —   Sobe?

 

Era uma voz adocicada, mansa, suave, em tudo contrastante com o tom estridente e marcial de sua esposa. Curioso e gentil, segurou a porta do elevador. Ela sorriu para ele em sinal de agradecimento. Tratava-se não de uma mulher exuberante, mas alguém que estava elegantemente vestida e denotava alguma sofisticação. Seus gestos eram refinados e um leve perfume agradável exalava de sua pele. Saltou no décimo andar, sacudindo a cabeça em sinal de boa noite.

 

Desde aquela data, a curta viagem de elevador tornou-se o melhor momento do seu dia. A presença daquela mulher e os quase monossilábicos cumprimentos pareciam amenizar todo o peso do cotidiano desprezível de sua existência. Ansiava por aqueles minutos, chegava a fazer uma horinha no hall social do prédio esperando que ela chegasse, forçando a coincidência do encontro. Entristecia-se caso ela não aparecesse e renovava a suas esperanças  para o dia seguinte.

 

Numa tarde, enquanto esperava o elevador já desapontado pela ausência da sua admirada, ela surgiu no hall social. Chorava. As lágrimas inundavam seu rosto, umedecendo os olhos redondos. Não havia ainda prestado atenção na beleza dos seus olhos castanhos. Na verdade, o tempo da viagem era demasiadamente curto para se prender a detalhes.

               —     Posso ajudá-la, moça?

 

Sacudiu negativamente a cabeça.

 

Ele ofereceu um lenço, prontamente aceito. O elevador chegou.

 

               —    Sou feia?

               —    Não.. imagina...

               —     Pareço uma pessoa  sem atrativos?  Me visto como uma freira?

               —     Claro que não!

             —     Ele acha que sim – disse soluçando – que fazer amor comigo é como beber água. Algo sem gosto, sem graça.

                —    Ele deve ter dito isto da boca pra fora – disse ele enquanto entravam no elevador.

 

Assim que a porta fechou, ela inesperadamente o agarrou, beijando-o com volúpia. Entre o correr dos andares, amaram-se de pé, vestidos. Parcos minutos de prazer até o elevador alcançar o décimo andar.

 

Os encontros passaram a ser diários. Quando havia uma ou mais pessoas esperando o elevador, eles aguardavam a oportunidade de subirem sozinhos. Caso um ou outro estivesse com o seu companheiro, fingiam indiferença e desconhecimento, um tanto desapontados pela oportunidade perdida. Amavam-se dentro da cabina, respiração ofegante, um misto de prazer e medo de que os respectivos cônjuges pudessem estar do outro lado da porta, no andar seguinte. Arrumavam-se rapidamente ante a aproximação do andar onde ela morava. Era automático, sem preliminares, sem nomes, curiosidades sobre a vida de cada um. Nada os atrapalhava naqueles breves momentos de paixão. Somente o ato de amor os consumia. 

 

Um dia, um blecaute tomou conta do Rio de Janeiro. A cidade foi invadida por um breu no começo da noite. Tudo parou, inclusive o elevador onde os amantes estavam. Os bombeiros, ao abrirem a cabina, parada entre dois andares, os encontraram risonhos, nus e gargalhantes, suas roupas espalhadas por todo o elevador. Ela agora sabia que ele se chamava Mauro. Ela, Andréa. Tiveram tempo.

 

Zulmar Lopes


Retirado de Revista Samizdat

publicado às 21:07


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